Parece que a pandemia trouxe algo de diferente para os atendimentos de orientação e transição de carreira: a demanda espontânea para aprofundar o conhecimento de si, para, como consequência, ter melhor clareza sobre o próximo passo de carreira.
Collage with young businessman against weather background
Este pedido não surge, apenas, nos profissionais que estão temporariamente sem trabalho, ao contrário, aparece de forma recorrente em pessoas ativas profissionalmente, e que começaram a refletir sobre a adequação do seu trabalho, e ambiente organizacional às suas questões pessoais, muitas vezes bastante íntimas e profundas.
Trabalhar com a ampliação do autoconhecimento, não é algo novo nos trabalhos de transição de carreira, o que me pareceu novo foi a maneira intensa, espontânea e genuína com a qual o pedido surgiu em muitos casos.
E penso que isto se deve à pandemia, e a compreensão de que temos, todos, uma vida psíquica que precisa ser reconhecida, compreendida, atendida e cuidada.
As redes sociais, jornais, revistas e noticiários ajudaram a criar um espaço para que o tema “saúde mental” fosse debatido.
Em resposta a esta discussão, e de forma simplista, podemos pensar que as empresas se dividiram em dois grupos: o das empresas que se sensibilizaram para o humano e o das empresas que fecharam os olhos para o pedido de acolhimento às pessoas com suas idiossincrasias, peculiaridade e conflitos, para além do papel profissional que cumprem na organização.
As rodas de conversa sobre saúde mental nas empresas, parecem ter cumprido um papel de validar os sentimentos antes relegados a segundo ou terceiro plano, atrás do intelecto e performance. Empresas genuinamente preocupadas, criaram espaços para acolher os sentimentos e angústias do período.
Por um lado, os profissionais, que atuam em empresas menos sensíveis às questões emocionais de seus funcionários, começaram a pensar se queriam se manter em uma empresa que não os acolhesse integralmente, como pessoas.
Por outro, os profissionais que foram acolhidos nas rodas de conversa, também perceberam, em alguns casos, a necessidade de se reposicionarem profissionalmente, não por insatisfação com o ambiente, mas pela compreensão de que houve, por algum motivo um fechamento de ciclo. E estas transições, são tão complexas quanto qualquer outra.
E por que, mesmo num bom ambiente de trabalho, existe o desejo de mudança? Para esta perguntas podem ser muitas as respostas.
Em muitos casos a identificação com a persona profissional (a dita camisa da empresa), era tão forte, e a falta de espaço interno para acolher, contatar e nomear seus sentimentos e motivações, era tão banalizada que, quando este surge, a sensação é de confusão e desamparo.
Não raros foram os casos em que, ao final de um programa de transição, a decisão final do profissional foi de manter-se no trabalho, que passava a ter um outro sentido em sua vida, não porque o ambiente havia mudado, mas porque o sujeito aprendeu a reconhecer e direcionar a energia psíquica a outras instâncias de sua vida, e, também, descobriu outras formas possíveis de estar no mundo.
Sua personalidade ampliou-se, e, em alguns casos novos interesses surgiram para atender aspectos de sua psique que estavam sendo negligenciados.
Situações de promoções na mesma empresa, também puderam ser observadas, não porque tecnicamente o profissional tenha ganhado novas competências ou habilidades, mas porque no âmbito do psíquico mudanças ocorreram, e possibilitaram uma nova e melhor interação com o ambiente profissional, que manteve, em muitas situações os mesmos desafios e problemas.