“Quem dança não é quem levanta poeira…Quem dança é quem reinventa o chão”
Quantas vezes para sobreviver à realidade concreta da vida, ou à demanda de uma presença aceita nas redes sociais, o sujeito mal cai, e já está imbuído em levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima, postando, obviamente a vitória sobre sua pequena ou grande tragédia.
O like pela conquista, servido em pequenas pílulas anestesia a dor, e reforça a narrativa infortúnio, batalha, superação, retorno, combate, vitória e aceitação.
Longe de estar fazendo uma crítica, acredito que este é um comportamento legítimo, e em alguns casos, até necessário para a sobrevivência nesta sociedade que pode receber a conceituação que mais preferirem: pós-moderna, líquida, complexa, do cansaço, do espetáculo.
Inicio a reflexão pelo contexto externo, para criar um contraponto para parte da realidade íntima que recebo em meu consultório: pessoas que buscam, em meio a sentimentos confusos e ambíguos, emoções que não conseguem nomear, uma série de recomendações teológicas, filosóficas, médicas, científicas e também psicológicas, simplesmente reinventar algum chão para dar apenas o próximo passo. Por trás de uma necessidade psicológica de construir uma realidade futura qualquer para seguir em frente, o que parecem buscar, na verdade, é uma conexão interna para criar e, muitas vezes, recriar algum chão para o seu próximo passo, em seu único, exclusivo e singular caminho de vida, que sim, e com muita frequência podemos relacionar com narrativas heroicas.
Apesar disso, o que me esforço para ver não são batalhas heroicas com desfechos previsíveis e gloriosos e para os quais eu deva conduzir o paciente, apesar de ambos “pegarmos carona”, em certa medida, nas trajetórias dos heróis míticos da grande aventura da humanidade na terra, e que nos mantém unidos à universalidade de nossa existência como espécie.A imagem que me surge, primeiramente em muitos casos, está mais para uma confusa, sonora, bela, horripilante, arrebatadora e as vezes assustadora e inacreditável Dança de Shiva, na qual o sujeito apenas ao se aproximar de sua ignorância e impotência diante de tantas certezas, e alguns fatos e acontecimentos de sua vida, consegue, paradoxalmente equilibrar-se, encontrar um eixo e lidar com o próximo, pequeno e até então desconhecido passo, entre os tantos, simultâneos e ambivalentes movimento que o som e a dança da vida lhe pede.
Como na prática do Yoga, a sensação de dor, desconforto e sofrimento está presente, no início como algo a ser combatido, evitado, negado. Depois, com o tempo, guiado quase como mágica pelo sopro da respiração, da disciplina da pausa, da reflexão e da consciência, passa a simplesmente ser mais um elemento da imagem. O sofrimento passa a ser um com a realidade da dança.
Como Analista, o que posso fazer é acolher o sofrimento, com o tamanho, frequência e intensidade que vier como parte da dança individual de cada paciente, oferecer várias moradas possíveis para este convidado indesejado, para que o paciente encontre, no seu tempo, o melhor lugar para acomodá-lo.
Na intimidade da clínica, diferentemente do mundo dos conceitos e teorias, que ensinam como nomear e às vezes dar a volta por cima, o espaço cumpre mais a função de criar ou recriar o chão para um simples próximo passo, sabendo que as grandes e longas narrativas, também estão acontecendo, porém em outra arena.
Para semear-se é preciso, às vezes, criar ou recriar o próprio chão.