Racismo e sofrimento psíquico: sobre as ofensas que você silencia
Não são poucas as vezes em que o racismo e o sofrimento psíquico caminham juntos, deixando marcas profundas na dignidade e na autoestima de quem os vivencia. O trauma do racismo e do classismo produz efeitos subjetivos duradouros, muitas vezes acionando reações intensas diante de qualquer sinal de violência moral, simbólica ou psicológica.
Na clínica, é recorrente observar como essas reações nem sempre funcionam como proteção. Ao contrário, podem ampliar a vulnerabilidade do sujeito quando ele se encontra em relação com alguém que ocupa uma posição de poder. O que parece defesa pode se tornar mais um fator de exposição ao sofrimento psíquico.
Racismo, classismo e sofrimento psíquico nas travessias sociais
O racismo estrutural e o classismo são traços constitutivos da nossa cultura. Todos aqueles que realizaram alguma travessia transsocial carregam, em sua psique, marcas dessa experiência. Em alguns casos, a ferida está mais exposta; em outros, parece mais elaborada. Ainda assim, continua sendo uma ferida que atravessa o sofrimento psíquico.
Essas marcas se apresentam na clínica de forma recorrente, atravessando histórias de vida, vínculos afetivos, relações de trabalho e processos de pertencimento social.
Trauma, projeção e racismo internalizado
Quando o sujeito não cuida da própria ferida, o racismo e o sofrimento psíquico tendem a se manifestar por meio de projeções inconscientes ou ataques conscientes ao Outro. Esse Outro passa a funcionar como imagem da Sombra, enquanto a Persona se adapta ao estrato social da identificação atual.
Nesse contexto, o conflito externo não pode ser compreendido sem considerar o conflito psíquico interno que permanece não elaborado. Aquilo que não é simbolizado retorna sob a forma de repetição.
Não se permita enganar. Se você se sentiu moralmente ofendido, você foi ofendido. Nomear a violência é um passo fundamental para interromper os efeitos silenciosos do racismo e do sofrimento psíquico.
Da mesma forma, se você ofendeu sem saber por quê, não se trata apenas de um pedido de desculpas. Trata-se de tratamento. O sofrimento psíquico que não é reconhecido tende a se repetir nas relações.
Racismo, sofrimento psíquico, inclusão e diversidade
Este texto dialoga com reflexões inspiradas na obra Políticas da Inimizade, de Achille Mbembe, e com meu campo de pesquisa atual, voltado à compreensão dos fenômenos sociais vinculados ao racismo e ao sofrimento psíquico, a partir de uma perspectiva transsocial, com foco em inclusão e diversidade.
A hostilidade que marca nosso tempo não é uma fantasia individual. Ela é real e socialmente produzida. Existe um jogo injusto em curso, no qual há um inimigo externo evidente, mas também um inimigo interno, que cresce sempre que a ferida do racismo e do sofrimento psíquico é ignorada ou naturalizada.
Travessias, mudanças e cuidado com o sofrimento psíquico
Novo trabalho, nova família, nova cidade. Toda mudança implica alguma travessia. E toda travessia reativa marcas anteriores. Cuidar do sofrimento psíquico associado ao racismo e ao classismo é condição para que a travessia não se transforme em repetição de violência, contra si ou contra o outro.
04 fevereiro, 2026