Nossa vida psíquica acontece e se desenvolve a partir da relação de um grande par de opostos: consciente e inconsciente.
Entre elas às vezes há diálogo, às vezes conflito.
Reconhecer esse movimento, com todas as suas tensões e paradoxos, e que muitas vezes nos faz parecer contraditórios e incoerentes, é um dos frutos mais preciosos de um processo analítico, pois nos coloca em contato com quem somos verdadeiramente.
Nos oferece autonomia, e uma certa liberdade relativa para assumir nossos atos, ou nos responsabilizarmos pela nossa vida.
Por isso, é curioso (e um pouco inquietante) observar a avalanche de conteúdos que circulam na internet prometendo o certo, o ideal, o correto, a partir de uma perspectiva de fora, de um outro que está distante da vida real.
A relação perfeita.
O trabalho perfeito.
A maternidade perfeita.
A paternidade perfeita.
O vocabulário perfeito.
As emoções certas, na medida certa, no tempo certo.
Mas o ser humano não é perfeito, ao contrário é feito de contradições.
Quem nunca se pegou desejando uma coisa e fazendo outra?
Querendo proximidade e, ao mesmo tempo, silêncio?
Amando alguém e sentindo irritação?
Buscando autonomia e pedindo colo?
Não reconhecer as contradições em si, é o primeiro caminho para responsabilizar o outro pelos nossos problemas.
Na clínica, muitas vezes o sofrimento não vem exatamente da relação que a pessoa vive — mas da ideia de que para ser boa, essa relação deveria ser outra. Mais limpa. Mais madura. Mais “bem resolvida”. Mais parecida com algum ideal vendido por aí.
Se antes os modelos de perfeição estavam concentrados no corpo, no cabelo ou na aparência, hoje eles se espalham pela vida inteira:
— como você se comunica,
— como educa seus filhos,
— como se relaciona com seus pais,
— como ama, trabalha, descansa, sofre.
Para cada aspecto da vida, existe uma receita.
Ou pior: muitas receitas, muitas normas, muitos manuais — quase sempre incompatíveis entre si.
E, no meio disso tudo, a experiência viva, contraditória, confusa e profundamente humana vai sendo desautorizada.
Vivemos numa cultura de performance, de espetáculo.
E quanto mais rígida a performance para atender a uma norma rígida, mais distante ficamos da nossa humanidade imperfeita.
O celular já não é apenas uma ferramenta prática. Ele se tornou um espelho normativo: um “outro” que nos observa, compara, avalia.
Não a partir de relações reais, mas de padrões irreais — cuidadosamente produzidos para gerar engajamento, capturar desejo e alimentar fantasias.
O antídoto?
Talvez não seja “se corrigir”, “se alinhar” ou “evoluir” o tempo todo.
Talvez seja aceitar, reconhecer — e até brincar — com as próprias incoerências.
Porque quando percebemos nossas contradições, algo importante se revela:
👉 ainda somos humanos.
👉 ainda não viramos uma réplica holográfica de ideais impossíveis, para isso existem os personagens criados por IA.
Esta série de posts nasce para isso:
para celebrar nossas incoerências,
honrar nossas contradições
e abrir espaço para uma vida menos perfeita — e mais verdadeira.
E você?
Onde sente que está tentando caber num ideal que não é seu?
Em que ponto da sua vida você anda exigindo perfeição demais?
Seguimos conversando.
12 janeiro, 2026